Entre o tarifaço americano e a geopolítica da IA, risco fiscal infla juros no Brasil

21 de julho de 2026 Por Redação

Publicado às 21h

Em um ambiente internacional marcado pela reconfiguração das cadeias globais de suprimento e por crescentes tensões comerciais, a percepção de risco sobre a economia brasileira voltou a se deteriorar. A combinação entre a expansão da presença chinesa em setores estratégicos e medidas protecionistas promovidas pelos Estados Unidos contrasta com as fragilidades fiscais internas, elevando o prêmio cobrado pelos investidores na renda fixa doméstica.

O diagnóstico foi detalhado pelo economista Charles Mendlowicz, sócio da consultoria de wealth management Ticker Wealth e fundador do canal Economista Sincero. Segundo o economista, o mercado acompanha uma disputa assimétrica entre as duas maiores potências do planeta. De um lado, a China impõe domínio global sobre a cadeia de veículos elétricos, baterias e inteligência artificial (IA) ao oferecer tecnologias avançadas por um custo inferior ao das alternativas ocidentais. Do outro, os Estados Unidos reagem com barreiras tarifárias, destacando-se a tarifa adicional de 25% aplicada a produtos brasileiros.

Para Mendlowicz, o protecionismo norte-americano adiciona incerteza às exportações e pressiona os preços globais de insumos. “O mundo está tenso e o grande confronto é focado entre Estados Unidos e China. O Brasil está em um ‘barquinho’ frágil no meio desse oceano complicado”, pontuou.

O sócio da Ticker Wealth explica que medidas protecionistas e barreiras alfandegárias adotadas por grandes potências adicionam volatilidade ao comércio internacional. “No caso do Brasil, acentua desafios competitivos para o setor produtivo nacional, ao mesmo tempo em que serve de retórica política em momentos pré-eleitorais. Alegações sobre práticas comerciais desleais, divergências em acordos de biocombustíveis e exigências ambientais continuam a pautar as negociações, impactando diretamente o fluxo de investimentos e as projeções econômicas para os próximos anos”, alerta Mendlowicz.

Fragilidade fiscal amplia juros reais

A falta de previsibilidade nas contas públicas continua sendo o principal obstáculo para a queda das taxas de juros no país. Com o endividamento em trajetória de alta e dúvidas sobre o cumprimento das metas orçamentárias, o mercado financeiro passa a exigir um prêmio de risco cada vez maior para financiar o governo.

“A taxa Selic na casa dos 14% e os títulos do Tesouro IPCA+ oferecendo taxas acima de 8% ao ano não são um acaso, mas sim o reflexo direto da cobrança do mercado diante da falta de um ajuste firme e transparente nas contas públicas”, avalia Mendlowicz.

Charles destaca que o impacto desse cenário vai além da inflação imediata. “A falta de uma âncora fiscal crível e transparente obriga a autoridade monetária a manter a taxa básica em níveis restritivos por mais tempo. Sem um corte efetivo de gastos e um controle rigoroso da dívida pública, o país fica refém de juros reais elevados, o que encarece o crédito e trava o investimento produtivo”, afirma Charles.

Segundo o Economista Sincero, a tentativa de estimular a economia sem a devida responsabilidade fiscal gera um efeito oposto ao desejado. “Não se trata apenas de cumprir metas no papel, mas de transmitir confiança aos agentes econômicos. Enquanto o risco fiscal persistir como a principal variável de incerteza, a taxa de juros real continuará pressionada, penalizando o crescimento sustentável de longo prazo”, conclui.