
Publicado às 21h
Em um ambiente internacional marcado pela reconfiguração das cadeias globais de suprimento e por crescentes tensões comerciais, a percepção de risco sobre a economia brasileira voltou a se deteriorar. A combinação entre a expansão da presença chinesa em setores estratégicos e medidas protecionistas promovidas pelos Estados Unidos contrasta com as fragilidades fiscais internas, elevando o prêmio cobrado pelos investidores na renda fixa doméstica.
O diagnóstico foi detalhado pelo economista Charles Mendlowicz, sócio da consultoria de wealth management Ticker Wealth e fundador do canal Economista Sincero. Segundo o economista, o mercado acompanha uma disputa assimétrica entre as duas maiores potências do planeta. De um lado, a China impõe domínio global sobre a cadeia de veículos elétricos, baterias e inteligência artificial (IA) ao oferecer tecnologias avançadas por um custo inferior ao das alternativas ocidentais. Do outro, os Estados Unidos reagem com barreiras tarifárias, destacando-se a tarifa adicional de 25% aplicada a produtos brasileiros.
Para Mendlowicz, o protecionismo norte-americano adiciona incerteza às exportações e pressiona os preços globais de insumos. “O mundo está tenso e o grande confronto é focado entre Estados Unidos e China. O Brasil está em um ‘barquinho’ frágil no meio desse oceano complicado”, pontuou.
O sócio da Ticker Wealth explica que medidas protecionistas e barreiras alfandegárias adotadas por grandes potências adicionam volatilidade ao comércio internacional. “No caso do Brasil, acentua desafios competitivos para o setor produtivo nacional, ao mesmo tempo em que serve de retórica política em momentos pré-eleitorais. Alegações sobre práticas comerciais desleais, divergências em acordos de biocombustíveis e exigências ambientais continuam a pautar as negociações, impactando diretamente o fluxo de investimentos e as projeções econômicas para os próximos anos”, alerta Mendlowicz.
Fragilidade fiscal amplia juros reais
A falta de previsibilidade nas contas públicas continua sendo o principal obstáculo para a queda das taxas de juros no país. Com o endividamento em trajetória de alta e dúvidas sobre o cumprimento das metas orçamentárias, o mercado financeiro passa a exigir um prêmio de risco cada vez maior para financiar o governo.
“A taxa Selic na casa dos 14% e os títulos do Tesouro IPCA+ oferecendo taxas acima de 8% ao ano não são um acaso, mas sim o reflexo direto da cobrança do mercado diante da falta de um ajuste firme e transparente nas contas públicas”, avalia Mendlowicz.
Charles destaca que o impacto desse cenário vai além da inflação imediata. “A falta de uma âncora fiscal crível e transparente obriga a autoridade monetária a manter a taxa básica em níveis restritivos por mais tempo. Sem um corte efetivo de gastos e um controle rigoroso da dívida pública, o país fica refém de juros reais elevados, o que encarece o crédito e trava o investimento produtivo”, afirma Charles.
Segundo o Economista Sincero, a tentativa de estimular a economia sem a devida responsabilidade fiscal gera um efeito oposto ao desejado. “Não se trata apenas de cumprir metas no papel, mas de transmitir confiança aos agentes econômicos. Enquanto o risco fiscal persistir como a principal variável de incerteza, a taxa de juros real continuará pressionada, penalizando o crescimento sustentável de longo prazo”, conclui.