Condições macroeconômicas mais fracas pressionam a qualidade de crédito na América Latina

São Paulo, 28 de julho de 2026 – Os desafios relacionados à qualidade dos ativos estão se intensificando nos bancos da América Latina, à medida que condições macroeconômicas mais fracas, inflação persistente e mudanças na dinâmica do crédito reduzem a capacidade de pagamento dos tomadores após três anos de forte crescimento do crédito, de acordo com relatório da Moody’s.
Na Argentina, os empréstimos inadimplentes ao consumidor (NPLs, em inglês) estão aumentando rapidamente após uma expansão do crédito depois de anos de restrições. No Brasil, famílias e empresas enfrentam taxas de juros domésticas e internacionais elevadas por um período prolongado e bancos mais seletivos, o que pressiona as condições de refinanciamento enquanto os consumidores continuam lidando com altos níveis de endividamento e juros elevados. Além disso, recentes inadimplências corporativas de grande porte no Brasil e o aumento dos créditos problemáticos nas carteiras de varejo e de pequenas e médias empresas (PMEs) no Brasil e na Argentina também contribuem para a retração do crédito. Os bancos colombianos estão saindo de um ciclo de crédito difícil, embora uma mudança no ciclo monetário possa retardar sua recuperação. No México, novas fintechs e bancos digitais estão remodelando a concorrência e estimulando uma maior expansão do crédito ao varejo, o que provavelmente alterará os padrões históricos de risco de ativos.
A qualidade dos ativos das famílias está se deteriorando na maioria dos principais sistemas bancários da América Latina. O rápido crescimento do crédito ao consumidor sem garantia elevou o endividamento além da capacidade de pagamento dos tomadores. A Argentina registrou a deterioração mais acentuada, com os NPLs das pessoas físicas atingindo o maior nível em mais de duas décadas à medida que as taxas de juros reais se tornaram positivas e a renda disponível enfraqueceu. No Brasil, o aumento do endividamento dos consumidores reflete o crescimento de novos produtos de crédito e o maior apetite ao risco dos bancos digitais, enquanto riscos inflacionários e fiscais continuam a pressionar a qualidade futura dos ativos. O México se destaca por seu nível relativamente baixo de endividamento, embora o crescimento econômico mais fraco e a rápida expansão do crédito ao consumidor criem focos de risco, à medida que as baixas contábeis (write-offs ) aumentam. Na Colômbia, o renovado aperto das condições monetárias desafia a sustentabilidade da recuperação observada desde 2025.
A deterioração é mais contida nas carteiras corporativas, mas há vulnerabilidades. As empresas brasileiras têm recorrido cada vez mais ao crescimento dos mercados domésticos de capitais para compensar os altos custos de financiamento, o que reduziu as exposições concentradas em um único tomador nas carteiras dos bancos, mitigando o impacto de perdas por deterioração de crédito. No entanto, empresas menores, que dependem mais do financiamento bancário e de garantias governamentais, são mais vulneráveis ao aperto das condições financeiras, aumentando a pressão sobre os balanços dos bancos. Um setor agrícola já pressionado no Brasil enfrenta custos mais elevados de fertilizantes, taxas de juros muito altas e uma probabilidade crescente de um forte ciclo climático do El Niño. Na Argentina, os créditos problemáticos das PMEs aumentaram acentuadamente à medida que o crescimento do crédito foi retomado em um ambiente de taxas de juros elevadas e voláteis e menor erosão da dívida impulsionada pela inflação. Os NPLs corporativos atingiram 3.3% em maio de 2026, embora taxas de juros mais baixas possam ajudar a estabilizar a qualidade dos ativos. A normalização das carteiras de atacado na Colômbia também tem ficado para trás, enquanto o México manteve índices de NPLs corporativos muito fortes e estáveis, com empresas maiores se beneficiando de receitas diversificadas e acesso aos mercados de capitais.







