Bolsa barata, mas sem comprador: risco fiscal e inadimplência afastam investidor do Brasil

29 de junho de 2026 Por Redação

Publicado às 22h

O ambiente macroeconômico brasileiro desenha uma dinâmica que intriga o setor financeiro: apesar de operar com valuations historicamente baixos, o mercado de ações doméstico não consegue atrair o capital internacional. Enquanto bolsas globais renovam máximas históricas impulsionadas por empresas de tecnologia, o Brasil assiste à fuga de capitais.

“O cenário de ‘terra arrasada’ deixa o Brasil mais barato que a Argentina. A bolsa brasileira está extremamente barata, até em relação à média histórica do P/L. Mas o investidor estrangeiro olha e não tem coragem nem disposição para colocar dinheiro no país”, afirma Charles Mendlowicz, sócio da consultoria de wealth management Ticker Wealth e fundador do canal Economista Sincero.

Segundo o economista, o desinteresse externo não é um mero capricho, mas um reflexo direto da deterioração dos fundamentos fiscais e do avanço regulatório sobre a liquidez corporativa. “O dinheiro não volta por causa do risco fiscal e da gastança”, resume Mendlowicz. Ele aponta que a inflação persistente passou a pressionar a autoridade monetária, eliminando as expectativas de curto prazo para um alívio na taxa Selic. “A inflação não dá trégua. Isso exige uma Selic elevada por mais tempo. Essa Selic de agora pode não cair para os patamares que o Brasil precisaria imediatamente”, avalia.

Classe média e empresas são mais impactadas pelo cenário

A manutenção do juro real em patamares restritivos já transborda para a economia, gerando recordes sucessivos de inadimplência tanto para pessoas físicas quanto jurídicas. Em maio de 2026, o número de negativados no país atingiu a marca de 83,5 milhões, segundo dados da Serasa, um movimento que corrói o poder de compra e satura o mercado de crédito. No front corporativo, os pedidos de recuperação judicial acompanham o mesmo ritmo alarmante. “Se você tem que pagar de 20% a 30% de juro no ano sobre a sua dívida, você não tem esse lucro. As empresas não aguentam”, adverte o economista.

Mendlowicz enfatiza que o peso dessa desidratação econômica recai desproporcionalmente sobre uma faixa específica da população: “Quem está espremido é a classe média. A classe alta está bem, a classe baixa consegue alguma ajuda do governo. Mas a classe média enfrenta um cenário desesperador”.

Para agravar o fluxo de caixa das companhias, o economista sinaliza com preocupação a implementação do modelo de split payment na reforma tributária, que divide o imposto automaticamente no ato da transação eletrônica. “O governo vai receber o dinheiro antes de a empresa enxergar qualquer lucro. Isso vai tirar capital de giro e deixar o caixa mais apertado”, observa.

Bets drenam a renda dos brasileiros

Outro fator silencioso, mas preocupante para o comércio tradicional, tem sido o impacto das plataformas de apostas online, as chamadas bets. Um levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) aponta que, de janeiro de 2023 a março de 2026, o setor retirou R$ 143 bilhões do consumo de bens essenciais e entretenimento. “As apostas já tiraram mais dinheiro das famílias do que os juros. Esse dinheiro não vai fazer a roda da economia girar. A economia é uma roda, e ela está parando por falta de entendimento econômico”, comenta Mendlowicz.

Enquanto os gargalos internos paralisam a dinâmica doméstica, o capital global migra massivamente para mercados que lideram a fronteira tecnológica. O Brasil, dependente de commodities e sem representatividade no segmento de inovação, acaba isolado dos maiores fluxos de liquidez. “Bilhões de dólares estão saindo do Brasil para surfar a onda da inteligência artificial (IA) lá fora. Enquanto todo mundo discute tecnologia, o Brasil não é nem convidado para essas mesas. Ele assiste ao dinheiro ir embora e não faz nada”, conclui Charles Mendlowicz, reforçando a urgência de uma diversificação internacional de patrimônio diante da iminente volatilidade cambial e fiscal.