Dólar: fim da hegemonia ou oportunidade?

11 de abril de 2026 Por Redação

 

Publicado às 20h54

O reinado do dólar, estabelecido no pós-Segunda Guerra Mundial com o Acordo de Bretton Woods, enfrenta um de seus períodos mais desafiadores.

O dólar à vista fechou em queda de 1,03% a R$ 5,010 na sexta-feira, 10. Esse é o menor valor de fechamento desde 9 de abril de 2024. Na semana, o dólar acumulou queda de 2,9%. No ano  acumula perda de 8,7%.

Para o economista Charles Mendlowicz, sócio da Ticker Wealth e fundador do canal Economista Sincero, o fenômeno não é apenas uma oscilação momentânea, mas o reflexo de um sistema que sofre com uma “ferrugem” e um “desgaste” acumulado, especialmente após o fim da conversibilidade em ouro em 1971.

A origem da dominância do dólar

Mendlowicz explica que a dominância do dólar foi construída sobre a destruição das economias europeias e asiáticas no pós-guerra, enquanto os Estados Unidos mantinham sua infraestrutura intacta e grandes reservas de ouro. “O dólar virou rei porque o mundo saiu destruído da Segunda Guerra, mas os Estados Unidos, não”, conta o economista.

Entretanto, a mudança de postura americana (de exportadora de bens para exportadora de dólares) comprometeu a moralidade econômica do sistema, conforme explica Mendlowicz: “Os americanos passaram a produzir dinheiro e não bens. Enquanto a conversibilidade em ouro existia, estava tudo bem, era uma engrenagem relativamente positiva para todo mundo. Até que ligaram a impressora”.

Nações buscam alternativas

O movimento atual de desdolarização é impulsionado pelo uso da moeda como arma geopolítica, através de sanções e o congelamento de reservas internacionais. Isso tem levado nações, especialmente os países do BRICS, a buscarem alternativas.

De acordo com dados do Banco Central, divulgados em outubro de 2025, o Brasil reduziu suas reservas em dólar em cerca de 12%, elevando a exposição ao ouro e ao yuan chinês. A China, por sua vez, completou em abril 17 meses consecutivos comprando ouro, conforme informações do Banco Central do país.

“Eu acho que os países estão abrindo um pouco a mente. Não quer dizer que o dólar vá acabar do dia para a noite. O movimento é lento e gradual”, analisa o Economista Sincero. Para ele, embora o dólar perca força relativa, sua hegemonia total é improvável de cair nas próximas duas décadas devido à falta de uma alternativa única e transparente.

Ouro e Bitcoin como os novos portos seguros

Na visão de Mendlowicz, a substituição parcial do dólar não virá de outra moeda estatal, como o yuan, mas sim de ativos escassos: “Eu acho que as pessoas já escolheram o ouro e os investidores, o Bitcoin, para essa tarefa de substituir um pouco em parte o dólar”.

  • Ouro: de acordo com um relatório do BTG Pactual, o ouro valorizou mais de 60% em dólares em 2025. Metal se beneficia da instabilidade geopolítica e do cessar-fogo entre EUA e Irã.
  • Bitcoin: começa a ganhar representatividade no bolso de fundos de investimento e pode se tornar um “porto seguro no futuro”, segundo Mendlowicz.

Impacto no Brasil: juros e oportunidade

O economista explica que, no curto prazo, a fraqueza do dólar beneficia o cenário interno. “Um dólar mais fraco no Brasil ajuda a segurar a inflação. No entanto, há um risco nessa política. Manter os juros nas alturas para manter o dólar baixo pode pegar bem para o governo, mas as empresas e as famílias estão sendo prejudicadas”, observa Mendlowicz.

Apesar da queda recente, que pode levar o dólar a patamares abaixo de R$ 5,00 caso o fluxo estrangeiro e o diferencial de juros se mantenham, o sócio da Ticker Wealth enxerga o momento atual como uma janela para diversificação. “Dólar no médio a longo prazo, pelo menos nas últimas décadas, nunca foi um mau negócio”, conclui.

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