
Para o economista Charles Mendlowicz, disparada das taxas do Tesouro Direto reflete a desconfiança do mercado com o rumo das contas públicas, configurando “oportunidade e alerta ao mesmo tempo”
A recente escalada nas taxas dos títulos públicos brasileiros colocou investidores em compasso de espera. Com o Tesouro Direto voltando a pagar taxas de juro real próximas e até superiores a 8% ao ano (IPCA+ 8%), o cenário macroeconômico do país passou a ser debatido entre o entusiasmo de quem busca rentabilidade e o temor de quem enxerga a deterioração fiscal.
Para Charles Mendlowicz, sócio da consultoria de wealth management Ticker Wealth e fundador do canal Economista Sincero, o movimento atual é um termômetro do risco Brasil que, na visão de Mendlowicz, já se encontra na faixa vermelha. “A taxa atual traduz a percepção do mercado de que a condução fiscal do país perdeu a previsibilidade. O IPCA+ 8% mede a temperatura e a confiança dos investidores. Quando a desconfiança é grande, o juro fica elevado”, explica o economista.
A raiz do problema, segundo Charles, está na continuidade de uma política focada no aumento do gasto corrente em detrimento de investimentos estruturais. O economista relembra que as promessas em torno do novo arcabouço fiscal, que substituiu o teto de gastos sob a premissa de equilibrar as contas, não se sustentaram na prática: “Prometeram que não iam gastar mais do que a arrecadação, que daqui a pouco ia ter até superávit fiscal. No final, era tudo ‘balela’”.
O sócio da Ticker Wealth avalia que com o avanço do endividamento, o custo para rolar a dívida pública tornou-se uma bola de neve. “O governo gastou R$ 1 trilhão com juros da dívida em 2025 e o endividamento não para de subir. Esse dinheiro poderia estar sendo usado em escolas, universidades, hospitais, portos, aeroportos e rodovias”, afirma o Economista Sincero.
Além disso, Mendlowicz pontua que a estratégia de elevar impostos (com 27 aumentos nos últimos anos) já atingiu o limite da Curva de Laffer, resultando em ineficiência e fuga de capital estrangeiro. “Não adianta você aumentar a arrecadação. De nada adianta ‘jogar água’ no balde se o balde está totalmente furado”, compara o economista.
Queda do Ibovespa reflete migração global de investidores
Diante desse cenário turbulento, o Ibovespa engatou uma sequência inédita de oito semanas consecutivas de queda, refletindo a migração global de investidores para ativos mais seguros no exterior. No entanto, para o investidor de renda fixa de longo prazo, travar taxas elevadas em títulos soberanos surge como uma alternativa atrativa, desde que haja forte gerenciamento de risco.
“Para o longo prazo, pode ser uma oportunidade rara, mas taxas muito altas costumam refletir incerteza. Por isso é importante equilibrar entusiasmo e cautela”, observa Mendlowicz, alertando para os perigos do resgate antecipado via marcação a mercado: “No fim, IPCA + 8% é oportunidade e alerta ao mesmo tempo. Portanto, cuidado. Você pode se machucar”.
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